24.4.17

multitudinous seas

-  Haroldo de Campos

multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um 
sulco a popa deixando um sulco como uma lavra de lazúli uma cicatriz 
contínua na polpa violeta do oceano se abrindo como uma vulva violeta
a turva vulva violeta do oceano óinopa pónton cor de vinho ou cor de 
ferrugem conforme o sol batendo no refluxo de espumas o mar multitudinário 
miúdas migalhas farinha de água salina na ponta das maretas esfarelando 
ao vento iris nuntia junonis cambiando suas plumas mas o mar mas a escuma 
mas a espuma mas a espumaescuma do mar recomeçado e recomeçando 
o tempo abolido no verde vário no aquário equóreo o verde flore 
como uma árvore de verde e se vê é azul é roxo é púrpura é iodo é de 
novo verde glauco verde infestado de azuis e súlfur e pérola e púrpur
mas o mar mas o mar polifluente se ensafirando a turquesa se abrindo
deiscente como um fruto que abre e apodrece em roxoamarelo pus de sumo
e polpa e vurmo e goma e mel e fel mas o mar depois do mar depois do mar
o mar ainda poliglauco polifosfóreo noturno agora sob estrelas extremas 
mas liso e negro como uma pele de fera um cetim de fera um macio de
pantera o mar polipantera torcendo músculos lúbricos sob estrelas
trêmulas o mar como um livro rigoroso e gratuito como esse livro onde
ele é absoluto de azul esse livro que se folha e refolha que se dobra
e desdobra nele pele sob pele pli selon pli o mar poliestentóreo
também oceano maroceano soprando espondeus homéreos como uma verde 
bexiga de plástico enfunada o mar cor de urina sujo de salsugem e de 
marugem de negrugem e de ferrugem o mar mareado a água gorda do mar
marasmo placenta plácida ao sol chocada o mar manchado quarando ao
sol lençol do mar mas agora mas aurora e o liso se reparte sob veios
vinho a hora poliflui no azul verde e discorre e recorre e corre e 
entrecorre como um livro polilendo-se polilido sob a primeira tinta
da aurora agora o rosício roçar rosa da dedirrósea agora aurora pois 
o mar remora demora na hora na paragem da hora e de novo recolhe sua 
safra de verdes como se águas fosse redes e sua ceifa de azuis como
se um fosse plus fosse dois fosse três fosse mil verdes vezes verde
vide azul mas o mar reverte mas o mar verte mas o mar é-se como o
aberto de um livro aberto e esse aberto é o livro que ao mar reverte
e o mar converte pois de mar se trata do mar que bate sua nata de
escuma se eu lhe disser que o mar começa você dirá que ele cessa se eu
lhe disser que ele avança você dirá que ele cansa se eu lhe disser
que ele fala você dirá que ele cala e tudo será o mar e nada será o mar
o mar mesmo aberto atrás da popa como uma fruta roxa uma vulva frouxa
no seu mel de orgasmo no seu mal de espasmo o mar gárgulo e gargáreo
gorgeando gárrulo esse mar esse mar livro esse livro mar marcado e
vário murchado e flóreo multitudinoso mar purpúreo marúleo mar azúleo e
mas e pois e depois e agora e se e embora e quando e outrora e mais e 
ademais mareando marujando marlunando marlevando marsoando polúphloisbos



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