28.4.17

aos 16 parou de tocar piano os pássaros e as geografias dos homens

- Ana Carolina Assis

(para a joana)

a luz laranja
atravessava a pedra
era impossível

sobre a rocha gigante
detrás do vidro
antes da fome

da rocha aparente
manchada laranja

não sei se musgo
líquen raiz

criavam liga
e uma pedrinha
equilibrada
era impossível

e seria preciso
derrapar o carro
perder o olho
a liga
e as pontas

você dizia dos pássaros e da geografia dos homens e que estudou piano com a vó embora tenha parado aos 16

uma pedra sobre
a rocha gigante
sustentava a queda
d’água o abrigo dos
pássaros lentes

que só funcionariam
caso parássemos
o carro

coisa que não fizemos
pela mínima fome
que nós acometia

você dizia da acidez extrema entre as coxas e das vitórias-régias e do pincel mergulhado na sopa de cores trocadas e que viveu aqui desde os 11

a pedrinha sobre
o fundo laranja
nos olhava
fundo

e dizia eu não sou daqui
como disseram muitas vezes
aquelas mulheres

26.4.17

O cão sem plumas

-  João Cabral de Melo Neto


I. Paisagem do Capibaribe 

A cidade é passada pelo rio 
como uma rua 
é passada por um cachorro; 
uma fruta 
por uma espada. 

O rio ora lembrava 
a língua mansa de um cão, 
ora o ventre triste de um cão, 
ora o outro rio 
de aquoso pano sujo 
dos olhos de um cão. 

Aquele rio 
era como um cão sem plumas. 
Nada sabia da chuva azul, 
da fonte cor-de-rosa, 
da água do copo de água, 
da água de cântaro, 
dos peixes de água, 
da brisa na água. 

Sabia dos caranguejos 
de lodo e ferrugem. 
Sabia da lama 
como de uma mucosa. 
Devia saber dos polvos. 
Sabia seguramente 
da mulher febril que habita as ostras. 

Aquele rio 
jamais se abre aos peixes, 
ao brilho, 
à inquietação de faca 
que há nos peixes. 
Jamais se abre em peixes. 

Abre-se em flores 
pobres e negras 
como negros. 
Abre-se numa flora 
suja e mais mendiga 
como são os mendigos negros. 
Abre-se em mangues 
de folhas duras e crespos 
como um negro. 

Liso como o ventre 
de uma cadela fecunda, 
o rio cresce 
sem nunca explodir. 
Tem, o rio, 
um parto fluente e invertebrado 
como o de uma cadela. 

E jamais o vi ferver 
(como ferve 
o pão que fermenta). 
Em silêncio, 
o rio carrega sua fecundidade pobre, 
grávido de terra negra. 

Em silêncio se dá: 
em capas de terra negra, 
em botinas ou luvas de terra negra 
para o pé ou a mão 
que mergulha. 

Como às vezes 
passa com os cães, 
parecia o rio estagnar-se. 
Suas águas fluíam então 
mais densas e mornas; 
fluíam com as ondas 
densas e mornas 
de uma cobra. 

Ele tinha algo, então, 
da estagnação de um louco. 
Algo da estagnação 
do hospital, da penitenciária, dos asilos, 
da vida suja e abafada 
(de roupa suja e abafada) 
por onde se veio arrastando. 

Algo da estagnação 
dos palácios cariados, 
comidos 
de mofo e erva-de-passarinho. 
Algo da estagnação 
das árvores obesas 
pingando os mil açúcares 
das salas de jantar pernambucanas, 
por onde se veio arrastando. 

(É nelas, 
mas de costas para o rio, 
que "as grandes famílias espirituais" da cidade 
chocam os ovos gordos 
de sua prosa. 
Na paz redonda das cozinhas, 
ei-las a revolver viciosamente 
seus caldeirões 
de preguiça viscosa). 

Seria a água daquele rio 
fruta de alguma árvore? 
Por que parecia aquela 
uma água madura? 
Por que sobre ela, sempre, 
como que iam pousar moscas? 

Aquele rio 
saltou alegre em alguma parte? 
Foi canção ou fonte 
Em alguma parte? 
Por que então seus olhos 
vinham pintados de azul 
nos mapas? 


II. Paisagem do Capibaribe 

Entre a paisagem 
o rio fluía 
como uma espada de líquido espesso. 
Como um cão 
humilde e espesso. 

Entre a paisagem 
(fluía) 
de homens plantados na lama; 
de casas de lama 
plantadas em ilhas 
coaguladas na lama; 
paisagem de anfíbios 
de lama e lama. 

Como o rio 
aqueles homens 
são como cães sem plumas 
(um cão sem plumas 
é mais 
que um cão saqueado; 
é mais 
que um cão assassinado. 

Um cão sem plumas 
é quando uma árvore sem voz. 
É quando de um pássaro 
suas raízes no ar. 
É quando a alguma coisa 
roem tão fundo 
até o que não tem). 

O rio sabia 
daqueles homens sem plumas. 
Sabia 
de suas barbas expostas, 
de seu doloroso cabelo 
de camarão e estopa. 

Ele sabia também 
dos grandes galpões da beira dos cais 
(onde tudo 
é uma imensa porta 
sem portas) 
escancarados 
aos horizontes que cheiram a gasolina. 

E sabia 
da magra cidade de rolha, 
onde homens ossudos, 
onde pontes, sobrados ossudos 
(vão todos 
vestidos de brim) 
secam 
até sua mais funda caliça. 

Mas ele conhecia melhor 
os homens sem pluma. 
Estes 
secam 
ainda mais além 
de sua caliça extrema; 
ainda mais além 
de sua palha; 
mais além 
da palha de seu chapéu; 
mais além 
até 
da camisa que não têm; 
muito mais além do nome 
mesmo escrito na folha 
do papel mais seco. 

Porque é na água do rio 
que eles se perdem 
(lentamente 
e sem dente). 
Ali se perdem 
(como uma agulha não se perde). 
Ali se perdem 
(como um relógio não se quebra). 

Ali se perdem 
como um espelho não se quebra. 
Ali se perdem 
como se perde a água derramada: 
sem o dente seco 
com que de repente 
num homem se rompe 
o fio de homem. 

Na água do rio, 
lentamente, 
se vão perdendo 
em lama; numa lama 
que pouco a pouco 
também não pode falar: 
que pouco a pouco 
ganha os gestos defuntos 
da lama; 
o sangue de goma, 
o olho paralítico 
da lama. 

Na paisagem do rio 
difícil é saber 
onde começa o rio; 
onde a lama 
começa do rio; 
onde a terra 
começa da lama; 
onde o homem, 
onde a pele 
começa da lama; 
onde começa o homem 
naquele homem. 

Difícil é saber 
se aquele homem 
já não está 
mais aquém do homem; 
mais aquém do homem 
ao menos capaz de roer 
os ossos do ofício; 
capaz de sangrar 
na praça; 
capaz de gritar 
se a moenda lhe mastiga o braço; 
capaz 
de ter a vida mastigada 
e não apenas 
dissolvida 
(naquela água macia 
que amolece seus ossos 
como amoleceu as pedras). 


III. Fábula do Capibaribe 

A cidade é fecundada 
por aquela espada 
que se derrama, 
por aquela 
úmida gengiva de espada. 

No extremo do rio 
o mar se estendia, 
como camisa ou lençol, 
sobre seus esqueletos 
de areia lavada. 

(Como o rio era um cachorro, 
o mar podia ser uma bandeira 
azul e branca 
desdobrada 
no extremo do curso 
— ou do mastro — do rio. 

Uma bandeira 
que tivesse dentes: 
que o mar está sempre 
com seus dentes e seu sabão 
roendo suas praias. 

Uma bandeira 
que tivesse dentes: 
como um poeta puro 
polindo esqueletos, 
como um roedor puro, 
um polícia puro 
elaborando esqueletos, 
o mar, 
com afã, 
está sempre outra vez lavando 
seu puro esqueleto de areia. 

O mar e seu incenso, 
o mar e seus ácidos, 
o mar e a boca de seus ácidos, 
o mar e seu estômago 
que come e se come, 
o mar e sua carne 
vidrada, de estátua, 
seu silêncio, alcançado 
à custa de sempre dizer 
a mesma coisa, 
o mar e seu tão puro 
professor de geometria). 

O rio teme aquele mar 
como um cachorro 
teme uma porta entretanto aberta, 
como um mendigo, 
a igreja aparentemente aberta. 

Primeiro, 
o mar devolve o rio. 
Fecha o mar ao rio 
seus brancos lençóis. 
O mar se fecha 
a tudo o que no rio 
são flores de terra, 
imagem de cão ou mendigo. 

Depois, 
o mar invade o rio. 
Quer 
o mar 
destruir no rio 
suas flores de terra inchada, 
tudo o que nessa terra 
pode crescer e explodir, 
como uma ilha, 
uma fruta. 

Mas antes de ir ao mar 
o rio se detém 
em mangues de água parada. 
Junta-se o rio 
a outros rios 
numa laguna, em pântanos 
onde, fria, a vida ferve. 

Junta-se o rio 
a outros rios. 
Juntos, 
todos os rios 
preparam sua luta 
de água parada, 
sua luta 
de fruta parada. 

(Como o rio era um cachorro, 
como o mar era uma bandeira, 
aqueles mangues 
são uma enorme fruta: 

A mesma máquina 
paciente e útil 
de uma fruta; 
a mesma força 
invencível e anônima 
de uma fruta 
— trabalhando ainda seu açúcar 
depois de cortada —. 

Como gota a gota 
até o açúcar, 
gota a gota 
até as coroas de terra; 
como gota a gota 
até uma nova planta, 
gota a gota 
até as ilhas súbitas 
aflorando alegres). 


IV. Discurso do Capibaribe 

Aquele rio 
está na memória 
como um cão vivo 
dentro de uma sala. 
Como um cão vivo 
dentro de um bolso. 
Como um cão vivo 
debaixo dos lençóis, 
debaixo da camisa, 
da pele. 

Um cão, porque vive, 
é agudo. 
O que vive 
não entorpece. 
O que vive fere. 
O homem, 
porque vive, 
choca com o que vive. 
Viver 
é ir entre o que vive. 

O que vive 
incomoda de vida 
o silêncio, o sono, o corpo 
que sonhou cortar-se 
roupas de nuvens. 
O que vive choca, 
tem dentes, arestas, é espesso. 
O que vive é espesso 
como um cão, um homem, 
como aquele rio. 

Como todo o real 
é espesso. 
Aquele rio 
é espesso e real. 
Como uma maçã 
é espessa. 
Como um cachorro 
é mais espesso do que uma maçã. 
Como é mais espesso 
o sangue do cachorro 
do que o próprio cachorro. 
Como é mais espesso 
um homem 
do que o sangue de um cachorro. 
Como é muito mais espesso 
o sangue de um homem 
do que o sonho de um homem. 

Espesso 
como uma maçã é espessa. 
Como uma maçã 
é muito mais espessa 
se um homem a come 
do que se um homem a vê. 
Como é ainda mais espessa 
se a fome a come. 
Como é ainda muito mais espessa 
se não a pode comer 
a fome que a vê. 

Aquele rio 
é espesso 
como o real mais espesso. 
Espesso 
por sua paisagem espessa, 
onde a fome 
estende seus batalhões de secretas 
e íntimas formigas. 

E espesso 
por sua fábula espessa; 
pelo fluir 
de suas geléias de terra; 
ao parir 
suas ilhas negras de terra. 

Porque é muito mais espessa 
a vida que se desdobra 
em mais vida, 
como uma fruta 
é mais espessa 
que sua flor; 
como a árvore 
é mais espessa 
que sua semente; 
como a flor 
é mais espessa 
que sua árvore, 
etc. etc. 

Espesso, 
porque é mais espessa 
a vida que se luta 
cada dia, 
o dia que se adquire 
cada dia 
(como uma ave 
que vai cada segundo 
conquistando seu vôo).

24.4.17

multitudinous seas

-  Haroldo de Campos

multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um 
sulco a popa deixando um sulco como uma lavra de lazúli uma cicatriz 
contínua na polpa violeta do oceano se abrindo como uma vulva violeta
a turva vulva violeta do oceano óinopa pónton cor de vinho ou cor de 
ferrugem conforme o sol batendo no refluxo de espumas o mar multitudinário 
miúdas migalhas farinha de água salina na ponta das maretas esfarelando 
ao vento iris nuntia junonis cambiando suas plumas mas o mar mas a escuma 
mas a espuma mas a espumaescuma do mar recomeçado e recomeçando 
o tempo abolido no verde vário no aquário equóreo o verde flore 
como uma árvore de verde e se vê é azul é roxo é púrpura é iodo é de 
novo verde glauco verde infestado de azuis e súlfur e pérola e púrpur
mas o mar mas o mar polifluente se ensafirando a turquesa se abrindo
deiscente como um fruto que abre e apodrece em roxoamarelo pus de sumo
e polpa e vurmo e goma e mel e fel mas o mar depois do mar depois do mar
o mar ainda poliglauco polifosfóreo noturno agora sob estrelas extremas 
mas liso e negro como uma pele de fera um cetim de fera um macio de
pantera o mar polipantera torcendo músculos lúbricos sob estrelas
trêmulas o mar como um livro rigoroso e gratuito como esse livro onde
ele é absoluto de azul esse livro que se folha e refolha que se dobra
e desdobra nele pele sob pele pli selon pli o mar poliestentóreo
também oceano maroceano soprando espondeus homéreos como uma verde 
bexiga de plástico enfunada o mar cor de urina sujo de salsugem e de 
marugem de negrugem e de ferrugem o mar mareado a água gorda do mar
marasmo placenta plácida ao sol chocada o mar manchado quarando ao
sol lençol do mar mas agora mas aurora e o liso se reparte sob veios
vinho a hora poliflui no azul verde e discorre e recorre e corre e 
entrecorre como um livro polilendo-se polilido sob a primeira tinta
da aurora agora o rosício roçar rosa da dedirrósea agora aurora pois 
o mar remora demora na hora na paragem da hora e de novo recolhe sua 
safra de verdes como se águas fosse redes e sua ceifa de azuis como
se um fosse plus fosse dois fosse três fosse mil verdes vezes verde
vide azul mas o mar reverte mas o mar verte mas o mar é-se como o
aberto de um livro aberto e esse aberto é o livro que ao mar reverte
e o mar converte pois de mar se trata do mar que bate sua nata de
escuma se eu lhe disser que o mar começa você dirá que ele cessa se eu
lhe disser que ele avança você dirá que ele cansa se eu lhe disser
que ele fala você dirá que ele cala e tudo será o mar e nada será o mar
o mar mesmo aberto atrás da popa como uma fruta roxa uma vulva frouxa
no seu mel de orgasmo no seu mal de espasmo o mar gárgulo e gargáreo
gorgeando gárrulo esse mar esse mar livro esse livro mar marcado e
vário murchado e flóreo multitudinoso mar purpúreo marúleo mar azúleo e
mas e pois e depois e agora e se e embora e quando e outrora e mais e 
ademais mareando marujando marlunando marlevando marsoando polúphloisbos



Janeiro

-  Ledusha

são paulo não é pequena
para os que se amam.
da janela, toda a lapa.

desembaraço o cabelo
formulo banalidades
são tantas luzes luzindo
no calor dessa cidade

a brisa recolhe as sombras
brinca em meus brincos dourados
tantos dias parecidos
e o verão, uma fatalidade.

na gargalhada da noite
meu coração que farfalha
saltimbanco lindo caduco
a soco a soco
moldado

lua que brinca no poste
céu de verão madrugada
a sombra que me acompanha
desvia minha alegria
pela colcha despenteada

pernilongos insolentes
pintam de humor a tragédia
por tanto tempo esperada
ledusha falsa demente
encontra-se apaixonada.

24.3.17

a porca

-  Adelaide Ivánova


a escrivã é uma pessoa
e está curiosa como são
curiosas as pessoas
pergunta-me por que bebi
tanto não respondi mas sei
que a gente bebe pra morrer
sem ter que morrer muito
pergunta-me por que não
gritei já que não estava
amordaçada não respondi mas sei
que já se nasce com a mordaça
a escrivã de camisa branca
engomada
é excelente funcionária e
datilógrafa me lembra muito
uma música
um animal não lembro qual.

6.1.17

Translating is sexy

-  Leslie Kaplan


a poesia é um beijo
entre duas línguas
a french kiss
ou
um beijo americano

buscar o ponto
em que as duas línguas se encontram
lá no fundo
da boca
ou então na superfície
a ponta da língua
contra a ponta da outra língua
how do you say that in english?
I love you
that’s all
and
hold me tight
and
give it another try
baby


qual é o ponto de encontro
the meeting point
mas aí a gente pensa em carne
I can’t meet you here
dear meat

let’s play
a game
sim, vamos jogar um pouco

translating
is sexy

I know that

então

a boca the mouth
a língua the tongue

descreva a sensação
ooh ooh ooh
descreva de verdade

the tip of my tongue
dear love
will touch yours
dear love
and we will sing
dear love
together

the tip
of my tongue
will touch
yours

we won’t sing
my love
we will breath
my love in silence

we won’t sing
we will breath
in silence

we will live
and touch
slowly

does the tongue
have a skin?
the soft skin
of the tongue
will rape me
not rape
wrap
not wrap

uma língua doce
um pouco
rugosa

e não vamos falar
da saliva
essa substância mole
e doce
na boca

podemos trocá-la

ou talvez
ela troca você
como uma velha ponte mole

dilui-se dentro dela
ela faz você passar
é uma língua uma saliva uma velha ponte mole
ela leva você
ela faz você passar

but say it again
the soft skin of the tongue

some thing soft
and pointed

how is that possible

it is

say it
and do it

you do it to me
I’ll do it to you
again
and again
till silence
how is silence possible
the soft skin of silence

it is

soft silence
pointed silence

can silence be a bridge?
it can
it is

and here we are
welcome

little word
little word

diga-me uma palavra
só uma palavra

she didn’t like men with poney tails
ela não gostava de homens com rabos de
cavalo


cortes
nuances
atenção

I told you

about translating

give me
one word
just one word
that would open up
open up
explode
and multiply

sim
vamos lá
acabe comigo

a word
uma palavra

a word from you
my love
breaks me up
my love
and makes its way

my love
far inside me

sim
mas sim

she always gave him
a lot of trouble
era
uma chata

shut up
stupid
me beija
estúpido
there was this awful american
woman
who would say
she wanted to have sex

é nojento

é mesmo

but they do
they say that

those terrible
american woman

essas
mulheres
americanas
horríveis

oh
oh

Mas o céu, e essas estrias. Nada nos protege de sua beleza. Todo querer. O céu, o vinho, os livros, o amor. E o pensamento. Se não temos o pensamento, não temos nada. Nada de sua vida. Nada. Mas o pensamento, não o temos. Pensamos ele.

all the words

from all the times
from all the lives
you have lived
and will live

todas as palavras estão aí
disponíveis
elas esperam
all the words
and all the worlds
from all the lives
and all the lovers
cada palavra
está ali
não amanhã
hoje
NOW


(Tradução de Marília Garcia)

4.1.17

Julho

-   Lucas van Hombeeck


essa nossa cidade drives the people
a gente tem vontade de pegar o 436 grajaú pra ir ver a rosa weber, rosa luxemburgo, rosa
rosa

mas o sistema público de transporte 
não é rima
não tem graça
e nem é solução 
pra esse tipo de vontade

eu agradeço a essa vontade
porque ela, viva,
continua viva
a cidade,

                apesar de

a cidade está tão perigosa
a cidade está tão cara

ela disse
eu tenho medo de sair 
depois de escurecer 
e não saber voltar pra casa

você tem que aprender 
que a vida sempre é
apesar de

aqui da fila do banco pensar no mar é
o momento de luxo prensado entre o edifício e o automóvel
o assalto ao apartamento no alto Leblon
o perigo

aqui
onde o carpete é grama brotada 
azul e crespa 
regada a ar condicionado e insulfilm roxo

dá pra ver que certa estava minha tia avó tereza,
que me ensinou a pegar o ônibus sozinho pra ir pra escola e a pisar no pé das pessoas
que não me deixassem passar quando chegasse o ponto

a violência
vive junto com a cidade, no meio da cidade, por dentro
a cidade somos nós, a violência são os outros

mal sabiam eles
que o paraíso
são os outros

mas
é verão no rio de janeiro
o relógio marca sete horas
e ainda faz sol
a felicidade não é
mas é quase 
como se fosse

e hoje
pelo menos até umas seis
parece que a vida aqui ainda é
e que talvez até mereça
e que talvez ainda por cima 
valha a pena
continuar sendo

mesmo que muitas vezes ela seja

como se fosse


Desenterrar

-  Paul Auster


I
De par com as tuas cinzas, aqueles
ainda mal acabados de escrever, suprimindo
a ode, as atiçadas raízes, a estraneidade
do olhar – com mãos embrutecidas, arrastaram-te
para a cidade, apertaram-te
neste laço de gíria, e nada
te ofertaram. A tua tinta aprendeu
a violência das paredes. Banida,
mas sempre rumo à fraternal
quietude do coração, revolves os seixos
da velada terra, e compões o teu lugar
por entre os lobos. Cada sílaba
é um trabalho de sabotagem.


(Tradução de Rui Lage)

CD100270696BR

-  Leila Danziger


Retornar ao remetente 
diz a etiqueta colada ao envelope
que eu acreditava
entregue
ao destinatário
há tempos.

Mas certos dias
o carteiro é uma deusa
que devolve as oferendas

e recebo de volta meu próprio gesto

                        suspenso

paralisado no envelope
exausto de carimbos, assinaturas
mistérios

        mudou-se?
        falecido?
        recusado?

não sei

        onde guardar
        um envelope -
        rastro-de-luz
        remanescente
        do desejo
        arremessado
        e já extinto.

1.1.17

No rio de Heráclito

-  Wisława Szymborska


No rio de Heráclito
um peixe pesca os peixes,
um peixe corta um peixe com um peixe afiado,
um peixe constrói um peixe, um peixe mora num peixe,
um peixe foge de um peixe sitiado.

No rio de Heráclito
um peixe ama um peixe,
teus olhos - diz - brilham como os peixes no céu,
quero nadar contigo até o mar comum,
ó tu, a mais bela do cardume.

No rio de Heráclito
um peixe imaginou o peixe dos peixes,
um peixe se ajoelha ante um peixe, um peixe canta para um peixe,
e pede ao peixe um nado mais leve.

No rio de Heráclito
eu peixe único, eu peixe separado
(ao menos do peixe árvore e do peixe pedra)
escrevo, em momentos isolados, pequenos peixes 
de escamas tão fugazmente prateadas
que talvez a escuridão pisque de embaraço.

13.12.16

O abutre

-  Samuel Beckett

Arrastando a sua fome através do céu
do meu crânio concha de céu e da terra

mergulhando sobre os tombados de borco
que breve deverão retomar a vida e andar

escarnecido por um tecido que poderá não   
                                                                      [servir
até que a fome a terra e o céu se convertam
                                                             [em refugo

(Tradução de Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho)

27.9.16

O livro sobre nada

-  Manoel de Barros


É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

19.9.16

Dois dias antes da conferência

-  Heyk Pimenta


Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

quando sonham veem o lobo
umas veem o caçador
poucas se veem pastando
juntas
ao lado do lobo
que também pasta
sem conseguir
já não tem dentes

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

a cheia diz
barragem

atendem a fazem

mas cada litro seu tem placas de ferro nos ombros

dentro das casas
os moradores viram barragens
dos berços dos chiqueiros
mas a água acha pouco
o tutano deles
têm ossos moles
e os leva

a cheia diz
barragem

e lhe dão as costas

chumbam roldanas nas casas
enfeitam remos
ensaiam ladainha
de navegação

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

Não é por isso que os cavalos
aceitariam os ternos que lhes fazemos
e também não plantam hortas ou flores
guardam um pedaço do bruto puro
que por tanto tempo
vestiram
pensativos
ainda nos dão garupa
por cortesia e para nos
contar das assembleias
¿quantos pistões carrega o amor desses partidários?

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

Mesmo as que só querem
queimar o vizinho
têm como ninguém
um plano ideal
para o mundo

sei de quem junte dinheiro
e estoque querosene em casa

o lobo de cada uma
guarda
papéis dobrados
nos bolsos
sobre o que fazer
com o fogo

fico pensando o que
esses lobos de óculos que passam
as manhãs lendo nas padarias
pensam de nós ao dobrarem
pernas tão finas

são elegantes como ciganos
……………………………….vampiros
………………………..falsificadores
……………………………….de uísque

mas levam megafones
na valise

já vi mais de um
me olhar com doçura

ficamos mesmo para trás
amarramos o sapato antes
de vestir
não serviu

talvez consigam ainda
aprovar a escravidão

devolvo o olhar com condescendência

aos doces o dulcíssimo

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

a maioria quer
nisso
um jeito de quebrar
os relógios

6.9.16

Febril

-  Gilberto Gil

Veio gente me pedir uma esmola
Veio gente reclamar uma escola
Veio gente me aplaudir
Veio gente vaiar
Veio gente dormir nas cadeiras

Veio gente admirar meu talento
Veio gente adivinhar meu tormento
Veio gente me xingar
Veio gente me amar
Veio gente disposta a se matar por mim

E eu cantava aquela música, aquela música
Alucinação
Como se eu fosse um punhado de gente
E aquela gente ali, não
Como se o salão repleto fosse um deserto
E eu fosse mil 
Mil troncos de árvores velhas
Árvores velhas de pau-brasil

Tanta gente, e estava tudo vazio
Tanta gente, e o meu cantar tão sozinho
Todo mundo, mundo meu
Meu inferno, meu céu
Meu vizinho



18.8.16

Piedade

-  Roberto Piva


Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos